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quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Yôga e a Dança


“Só posso crer num deus que saiba dançar” 
Nietzsche

Tirando toda a questão técnica dos mudrás (gestos feitos com as mãos), dos mantras (vocalização de sons e ultra-sons), dos pránáyámas (respiratórios), ásanas (técnicas corporais de força, flexibilidade, equilíbrio), Kriyá (atividade de purificação das mucosas), yôganidrá (descontração), samyama (concentração, meditação e hiperconsciência), o que o Yôga tem de tão sinônimo assim com a dança?
Vamos abordar aqui a questão mitológica, histórica e humana. Até porque, para quem acompanha o blog, já pôde perceber que a prática do Yôga complementa qualquer outra prática pela maestria em proporcionar consciência corporal e desenvolvimento pessoal em acelerado processo evolutivo.

Eu, executando o êkahasta êkapáda dhanurásana
Foto de Fer Vasconcelos



A conexão entre a Dança e o Yôga

“Certa vez um famoso bailarino improvisou alguns movimentos instintivos, porém, extremamente sofisticados graças ao seu virtuosismo e, por isso mesmo, lindíssimos. Essa linguagem corporal não era propriamente um ballet, mas inegavelmente, havia sido inspirada na dança.
A arrebatadora beleza da técnica emocionava a quantos assistiam à sua expressividade e as pessoas pediam que o bailarino lhe ensinasse sua arte. Ele assim o fez. No início, o método não tinha nome. Era algo espontâneo que vinha de dentro, e só encontrava eco no coração daqueles que também haviam nascido com o galardão de uma sensibilidade mais apurada...
... Em algum momento na História essa arte ganhou o nome de integridade, integração, união: em sânscrito, Yôga! Seu fundador ingressou na mitologia com o nome de Shiva e com o título de Natarája, Rei dos Bailarinos.” (DeRose, Tratado de Yôga, p.33)


Rachel Brice, estuda Yôga e Dança do Ventre

Shiva Natarája, o Bailarino Real

Leia mais sobre a dança de Shiva - o criador mitológico do Yôga, o primeiro yôgi e Mestre de todos os demais - no post: Decifremos a dança de Shiva.

Shiva Natarája, o bailarino real


O deus da dança e do teatro

“Segundo a cosmologia hindu, o universo não tem substância. A matéria, a vida e o pensamento são apenas relações energéticas, ritmo, movimento e atração mútua. Podemos então conceber o universo o princípio, que dá origem aos mundos, às diversas formas de ser, como um princípio harmônico e rítmico, simbolizado pelo ritmo dos tambores, pelos movimentos da dança de Shiva, na qualidade de princípio criador, não profere o mundo, dança-o. “Quaisquer que tenham sido as origens da dança de Shiva, ela tornou-se com o tempo a imagem mais clara da atividade de Deus, que nenhuma arte ou religião pode vangloriar-se de ter inventado.” (Ananda Coomaraswany, The Dance of Shiva, p. 67)
Segundo o escritor grego Luciano (século II d.C): “Parece que a dança surgiu no começo de todas as coisas e manifestou-se ao mesmo tempo que Eros, o antigo, pois vemos essa primeira dança aparecer claramente no bailado das constelações e nos movimentos imbricados dos planetas e das estrelas e suas relações numa harmonia ordenada.”
Shiva, como manifestação da energia rítmica primordial, é o “senhor da dança” (Nata-rája). O universo cósmico é seu teatro. É o dançarino itifálico princípio de toda a vida. O que liga o Criados à criação, o ser divino ao mundo aparente, pode ser exprimido em termos de ritmo, movimento, de dança. O Criador dança o mundo, e, por analogia, a dança dos homens pode ser encarada como um rito, como um dos meios pelos quais iremos poder remontar à origem das coisas, aproximarmo-nos do divino, unirmo-nos a ele.
Todas as formas de danças e de espetáculos de teatro estão sob a égide de Dioniso, que é invocado no início de cada espetáculo. Shiva é do mesmo modo invocado antes de toda dança ou espetáculo...” (Alain Daniélou, Shiva e Dioniso, p. 177)

Eu, executando o úrdhwa natarájásana
Foto de Fer Vasconcelos

Enquanto isso na física quântica...

… Até Fritjof Capra, no seu conhecido livro O Tao da Física, também enaltece a dança em sua física quântica que na essência é Yôga também.
"As idéias de ritmo e de dança vem-nos naturalmente há memória quando procuramos imaginar o fluxo de energia que percorre os padrões que constituem o mundo das partículas. A física moderna mostrou-nos que o movimento e o ritmo são propriedades essenciais da matéria e que toda matéria, quer aqui na terra, quer no espaço sideral, está envolvida numa contínua dança cósmica. Os místicos orientais tem uma visão dinâmica do universo, semelhante a da física moderna; consequentemente, não é de surpreender que também eles tenham usado a imagem da dança para comunicar a intuição que tinham da natureza."


Concluímos que tanto quanto o Yôga, a Dança é uma das artes mais antigas da humanidade e ambas continuam sendo grandiosas na atualidade. Tais artes desabrocham no ser humano como uma expressão de autoconhecimento e integração. Integração esta do homem consigo mesmo, do homem com o universo que o rodeia, do micro com o macrocosmos. Possuem suas mitologias e simbolismos particulares, porém, é muito provável que suas origens tenham sido as mesmas.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Respiração e emoção

Encontrei esse texto escrito pelo Professor Clélio Berti, no blog da Unidade do Método DeRose Braga, de Portugal. Como foi pura sincronia com as aulas anteriores, nas quais falei bastante sobre respiração e também, por ter uma aluna de mudança para Braga, achei interessante compartilhar o texto com vocês.

Boa leitura!

"Um corpo saudável e forte necessita de alguns cuidados. Há um tripé fundamental para uma saúde significativa e uma qualidade de vida razoável: boa alimentação, actividade física moderada e felicidade.
Hoje vamos trabalhar com a alimentação. Mas o nosso assunto não é respiração? Pois bem, o corpo humano é alimentado de energia biológica que, no Yôga, chamamos de prána. Essa bioenergia é que movimenta. Um indivíduo com uma quantidade significativa de prána terá uma boa saúde, será activo, realizador e aproveitará a vida numa dimensão superior.
Nós retiramos a bioenergia, prána, do sol, dos alimentos, da água e do ar. Portanto, boa alimentação, do ponto de vista de Yôga, significa ingerir alimentos bons para o organismo, beber água em quantidade e qualidade excelentes e respirar ar puro e de forma que o organismo possa maximizar a absorção de bioenergia. A qualidade do ar não está ao nosso alcance imediato, pois a vida das grandes metrópoles implica numa certa dose de poluição do ar. Entretanto, a respiração adequada de forma a absorver a maior quantidade de bioenergia está disponível para qualquer um. São as técnicas respiratórias do Yôga que chamamos de pránáyáma. Ao quebramos a palavra, temos prána cujo significado é alento, força vital, energia, vitalidade; e áyáma cujo significado é expansão, intensidade. Ou seja, pránáyáma é a expansão da bioenergia através de técnicas respiratórias.

Por outro lado, a respiração é um processo consciente e inconsciente ao mesmo tempo. Respiramos vinte e quatro horas por dia sem que percebamos, porém podemos influir no ritmo respiratório. Portanto, a respiração é um elo de ligação entre as funções conscientes e inconscientes do ser humano.Cada estado emocional possui um ritmo respiratório característico. Se estivermos dormindo, a respiração é abdominal e lenta. Se estivermos agitados, stressados, a respiração é superficial e torácica. Se estivermos em estado de vigília, a respiração tenderá a ser completa. Nesses estados emocionais, o ritmo respiratório é ajustado inconscientemente. Certas características da personalidade humana manifesta-se também na respiração. Pessoas tímidas ou medrosas tendem a ter uma respiração superficial. Elas não conseguem expor-se ao ambiente e interagir com ele de forma ampla. Ou seja, há um padrão normal de respiração para cada indivíduo dependendo das características pessoais.

Toda a tensão emocional é materializada, no plano físico, com uma contracção muscular. Estados duradouros de tensão emocional reflectem-se em estados duradouros de contracção muscular. Reich denominou esse fenómeno de couraça do carácter. Quanto maior a tensão emocional, maior é a couraça do carácter e mais superficial será a respiração. Entretanto, os efeitos da emoção na respiração podem-se notar, de maneira mais intensa, por ocasião de um facto especial. O encontro, por exemplo, com uma grande paixão. O coração acelera, o rosto esquenta, as mãos e os pés gelam e a respiração fica acelerada. Características semelhantes acontecem com um grande susto ou uma situação muito stressante. Os estados emocionais afectam a respiração e o contrário também é verdadeiro: a respiração afecta as emoções. Essa é uma chave fundamental. Se a timidez leva a uma respiração superficial e eu desejo vencer a timidez, posso utilizar uma respiração profunda. Portanto, uma das maneiras de administrar as emoções é a utilização de técnicas respiratórias.

Fotógrafa: Fer Vasconcelos / Modelo: Marina Engler.

Se as emoções se processam a nível inconsciente e provocam uma respiração determinada, a respiração consciente em determinado ritmo, leva a estados emocionais compatíveis. Entretanto, a respiração afecta não só as emoções, mas também os estados mentais. O fluxo do pensamento é determinado também pelo fluxo respiratório. Ou seja, respirar correctamente produz diversos efeitos: há aumento significativo da bioenergia; as emoções são facilmente administradas; e a mente fica serena.  O Yôga possui as retenções com ar e sem ar. Se as emoções e a mente são vinculadas ao fluxo respiratório, se pararmos de respirar temporariamente, nas retenções com ar ou sem ar, o fluxo das emoções e do pensamento também param. Quando isso acontece, estados superiores de consciência manifestam-se. São os respiratórios do Yôga (pránáyámas) que trabalham ritmo com retenções com ar e sem ar.
Outro respiratório muito utilizado no Yôga é a respiração do sopro rápido que leva a uma hiper-oxigenação do sangue. Quando bombeamos muito oxigénio no sangue, há oxigénio nos músculos. Com isso, há uma descontracção generalizada. Se as tensões emocionais levam a contracções musculares, a hiper-oxigenação leva ao relaxamento generalizado dos músculos e, como consequência, relaxamento das tensões emocionais. As técnicas que aumentam a taxa de oxigénio no sangue também estimulam a kundaliní e os chakras, pois aumentam a energia biológica. Com o estímulo dos chakras o indivíduo adquire saúde excelente e desenvolve os poderes interiores. Com o estímulo da kundaliní, o indivíduo atinge estados superiores de consciência e o conhecimento completo de si mesmo e da natureza.

Veja que tanto as técnicas que aumentam significativamente o oxigénio do sangue, bem como os respiratórios ritmados com retenções com ar ou sem ar são úteis para o ser humano. Para utilizar de maneira eficaz, o praticante deverá procurar um instrutor de Yôga formado para trabalhar os dois elementos de forma segura e eficaz. Isso por que, as grandes retenções com ar e, mesmo as não tão longas retenções sem ar, reduzem significativamente o oxigénio do sangue. Se isso não for bem dosado, poderá provocar consequências não agradáveis. Portanto, não se aventure por conta e risco, se não estiver seguro do que está fazendo. Nessa matéria, somente ensinaremos técnicas seguras. Os resultados aparecem de imediato? Quando você faz uma prática de respiratórios e faz respirações profundas, você altera os estados emocionais e mentais. É só parar de fazer o respiratório (pránáyáma) e a respiração volta a ser a mesma. A razão é simples: se você respirou de forma incorrecta por vinte e dois anos, não é em uma prática que esse ritmo é restabelecido. Mas o caminho é esse. Você respira bem durante a prática. Com a repetição da prática, aos poucos, a sua respiração correta cada vez mais passa a fazer parte da sua vida. É bom frisar que não há magia. O resultado depende da prática constante, contínua e frequente.

Para o desenvolvimento adequado das técnicas respiratórias, o correto é você encontrar um instrutor de Yôga formado. Porém, há técnicas simples que podem ser executadas sem qualquer risco e excelentes resultados. O livro Tratado de Yôga do escritor e educador DeRose, relaciona cinquenta e oito técnicas respiratórias diferentes. Entre elas temos respiratórios para activar os chakras e a kundaliní. Esses respiratórios são para praticantes avançados.

Uma técnica simples, porém muito eficiente, é a respiração completa. Conhecido como rája pránáyáma. Sente-se numa posição firme e confortável. Inspire projectando o abdómen para fora, continue inspirando expandindo as constelas para os lados e dilatando a parte mais alta do tórax. Retenha o ar nos pulmões por alguns instantes. Expire soltando a parte alta, depois a média e finalmente a parte baixa dos pulmões. Faça essa respiração por dez minutos e vá aumentado o tempo aos poucos. Qualquer técnica respiratória tem de ser gostosa. Não pode produzir cansaço nem desconforto. A face deve manter-se serena e os batimentos cardíacos não podem acelerar.

Outra técnica interessante é executar o respiratório ritmado enquanto caminha. Você inspira em quatro passos. Retém o ar nos pulmões cheios por quatro passos. Expira nos outros quatro passos. Repita o ciclo enquanto caminha. Você pode ajustar o ritmo ao seu organismo. Se quatro for algo que leve ao desconforto ou falta de ar, você inspira em três passos, retém em três e expira em três. Ou seja, você pode aumentar ou diminuir o tempo de acordo com o seu ritmo biológico. Não poderá haver cansaço, falta de ar ou desconforto. Lembre-se sempre de respeitar o seu corpo. Não o agrida.

O antara kúmbhaka é um excelente respiratório. Sentado numa posição firme e confortável, você inspira expandindo o abdômen, as costelas e o alto do tórax em quatro segundos. Retém com os pulmões cheios contando oito segundos. Expira primeiro a parte alta, depois a média e finalmente a baixa em quatro segundos. É o respiratório ritmado. A proporção aqui ensinada é 1:2:1 (inspiração: retenção com ar: expiração), ou seja, o tempo de retenção com ar é o dobro da inspiração e o tempo da expiração é igual ao da inspiração. Outro ritmo interessante, porém mais avançado, é 1:4:2. Nesse caso, a retenção com ar é quatro vezes o tempo da inspiração e a expiração é o dobro do tempo da inspiração. Assim, por exemplo, se você inspira em quatro segundos, a retenção com ar é em dezasseis segundos e a expiração é em oito segundos. Nessa técnica, não há retenção sem ar. As retenções sem ar não devem ser feitas, sem o acompanhamento de um instrutor de Yôga formado.

O ritmo na respiração produz efeitos fantásticos. Um ritmo suave, cadenciado e fluido deixará as suas emoções e a sua mente, suave, cadenciada e fluida. A respiração ritmada detona qualquer stress. Porém, o ritmo deve ser suave. Não deverá haver ruído e a respiração deverá ser, nesses casos acima, sempre nasais. Ou seja, o ritmo deve ser suave como uma pluma solta ao vento. Não poderá haver cansaço, transpiração, aceleração cardíaca ou desconforto. Qualquer desses sinais significa que você está exagerando na prática. Reduza o tempo de prática ou o ritmo dos respiratórios. Além dos ritmos aqui ensinados, temos vários outros. Há as contrações de glândulas e plexos – as bandas, as mentalizações e as canalizações energéticas. Para isso, faz-se necessária a bibliografia especializada.

Uma excelente possibilidade é a prática orientada por CD. Há a Prática Básica do Mestre DeRose que ensina os fundamentos alguns respiratórios diferentes. O livro Pránáyáma do André Van Lysebeth, Presidente da Federação Belga de Yôga, é também um livro recomendado."

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mantras - vocalização de sons e ultra-sons

"Mantra é qualquer palavra ou som que possa emitir. Existe um ditado no Yôga que diz: palavra é mantra. Ou seja, em qualquer idioma, quando se fala qualquer coisa, emite-se um mantra, um arquétipo vibratório e sonoro de uma intenção.

Se contada uma verdade, por exemplo, é criado um arquétipo dela. Ao mesmo tempo no inconsciente há um aumento de credibilidade em relação ao que foi dito. Aprimora-se assim a capacidade de emitir vibrações que causem efeitos e resultados reais. Para tanto, o comportamento deve ser atrelado ao preceito de satya*, a verdade, tornando a palavra mais poderosa. O contrário também acontece, no caso de uma mentira. 

...

Mantra pode-se traduzir como vocalização. Compõem-se do radical man (pensar) + a partícula tra (instrumento). É significativa tal construção semântica, já que o mantra é muito utilizado pra se alcançar a  "supressão da instabilidade da consciência", denominada intuição linear ou... meditação!" Essa é uma das finalidades que será explanada no decorrer do livro O poder do mantra, de autoria de Ricardo Melo e Caio Melo.

Fica aí a dica deste excelente  livro sobre mantras.

Na nossa escola temos práticas de mantras nas aulas de sat sanga, às segundas-feiras, às 20h, aberta a todos os alunos. Participe!

*Para saber mais sobre satya, acesse o post Código de ética do Yôgin.

Mantras: sat sanga do dia 17/8

Eis abaixo os mantras vocalizados no sat sanga de ontem (17/8):


Samba Sadáshiva

Samba Sadáshiva, Samba Sadáshiva,
Samba Sadáshiva, Samba Shiva ÔM Hara.
ÔM Mata, ÔM Mata, ÔM Sri Mata Jagadambá (2x)
Uma Paramêshwarí Sri Bhuvanêshwarí,
Ádi Parashaktí Devi Mahêshwarí

Foto de Robeto d'Ávila. Fonte: YôgaPress

Jaya jaya Shiva Shambhô

Jaya jaya Shiva Shambhô. (2x)
Mahádêva Shambhô. (2x)
Shiva, Shiva, Shiva Shambhô. (2x)
Mahádêva Shambhô. (2x)

Aprenda 50 mantras, com letra e vocalização, no site do instrutor do Método DeRose, Marco Carvalho.